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Crowdfunding

Tudo sobre Crowdfunding e seus diferentes modelos

Guia completo para desmistificar o assunto.

05/07/2019 10h58Atualizado há 11 meses
Por: Guilherme Corrêa
Fonte: Clusternews
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Em abril deste ano (2019) a plataforma Kickstarter atingiu a incrível marca de 1 bilhão de dólares enviados para sua plataforma apenas para financiamento de games. US$ 1 bilhão enviados por milhares de pessoas para uma dentre tantas plataformas de crowdfunding no mundo para financiar aproximadamente 17 mil jogos. 

 

O mercado de crowdfunding deverá chegar em US$ 93 bilhões para 2025 de acordo com o banco mundial. Agora, além de financiar games, projetos, filmes e arte, são mecanismos também para financiamento de startups e até empresas robustas. O investimento em startups em troca de direitos de participação, através do equity crowdfunding, atingiu quase 1 bilhão e meio de dólares dois anos apenas após a regulamentação em 2016, com alguns analistas inclusive gritando “bolha”.

 

Aquilo que começou como uma forma de fazer a conhecida vaquinha para apoiar projetos específicos se tornou um gigante e complexo mecanismo de financiamento. Vamos conhecer de onde surgiu esse modelo, que “crowdfundings” que existem hoje, quais as plataformas e como tirar o melhor proveito delas.

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Origem

O crowdfunding na verdade é bastante velho. Já no início de 1700, o escritor Jonathan Swift criou o um fundo de empréstimo para pobres bons pagadores em Dublin. O dinheiro fornecido por pequenas contribuições de abastados formam o “pool” a ser emprestado para os tomadores do empréstimo.

 

Ao longo da história, outros tais eventos semelhantes ocorreram. No entanto, o mundo da internet conseguiu dar a essas iniciativas uma escala até então inimaginável.

 

O primeiro caso de sucesso do crowdfunding online, antes inclusive da “invenção” do termo em 2006, foi o caso da banda britânica Marillon, em 1997. Eles financiaram sua turnê com base numa arrecadação online de doações de fãs.

Conceito e primeiras plataformas

O Crowdfunding, portanto, é quando financiamos alguma empreitada através de contribuições do público, das massas, ou “crowd” em inglês. A internet é o meio óbvio para atingir o maior público possível que possa se interessar em colaborar para determinado projeto.

 

A primeira plataforma online de crowdfunding foi a ArtistShare, um intermediário para artistas criativos financiarem seus projetos com doações da sua base de fãs. Inclusive, credita-se o crescimento inicial desse modelo ao fato de artistas serem bem relacionados e comunicativos (ok, nem sempre). 

 

Em 2007 e 2009 são lançadas algumas das maiores plataformas modernas, respectivamente a Indiegogo e a Kickstarter. Diz-se que a crise de 2008 representou um grande empurrão para essas plataformas, pois projetos tiveram que procurar meios alternativos para se financiarem.

 

O modelo bastante simples: as plataformas servem como agentes intermediários entre o público que envia dinheiro e os projetos que buscam financiamento. Às vezes num modelo de doação e às vezes com a empresa garantindo algum “perk” em troca como o produto produzido por aquele projeto ou algo diferente. No fim, as plataformas ficam com um percentual daquela captação. A Indiegogo, por exemplo, leva 5% dos fundos captados e uma taxa sobre a transação. A Kickstarter atua no mesmo modelo e com a mesma estrutura de “fees”.

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O modelo muitas vezes surpreendeu quando fala-se em engajamento do público. Por exemplo, a rodada do Pebble Time Watch tinha uma meta de $500.000,00 e acabou arrecadando $20.338.986,00, ou 40,6 vezes a meta. Abaixo algumas das cinco maiores arrecadações compiladas pelo jornal americano Wall Street Journal:

Quais os tipos de Crowdfunding que existem?

O crowdfunding baseado no envio de dinheiro do público para projetos com o investidor/doador recebendo nada em troca ou um produto/camiseta/apetrecho evoluiu para atender novos mercados. Hoje pode-se dizer que existem quatro tipos de crowdfunding: o crowdfunding de recompensas (camisetas e produtos em troca de dinheiro), de doações (nada em troca), dívida (pool de dinheiro de credores para financiar projeto em troca de juros) e equity crowdfunding (modelo no qual o investidor do projeto recebe uma participação no projeto). Vamos entender cada um:

Crowdfunding de doações e de recompensas

É o mais conhecido, representando por grandes plataformas internacionais como Indiegogo e Kickstarter e no Brasil, plataformas como Kickante, Catarse e Vakinha

 

No modelo de doações o investidor/doador recebe nada em troca (apenas a gratificação de ter ajudado determinada campanha). Ficou comum nas últimas eleições no Brasil, candidatos utilizarem essa maneira de se financiar através do “Doação Legal” da plataforma Vakinha, por exemplo. Essa forma de arrecadação foi regulada e diversas plataformas foram aprovadas a operar dessa forma pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

 

No caso do modelo de recompensas, o investidor recebe alguma coisa relacionada ao projeto em troca de sua doação. Algo como um agradecimento pela contribuição. Se for uma campanha para desenvolver um determinado produto, a recompensa seria receber o produto (quase como comprar o produto com um sobrepreço). Recompensas usuais são camisetas, bótons, e quantias substanciais enviadas podem representar “perks” adicionais como um jantar com os idealizadores do projeto.

Crowdfunding de dívida

Possivelmente um dos primeiros modelos no mundo analógico ganhou tração mais recentemente no mundo digital. Pessoas investem em determinado projeto como um empréstimo. Várias pessoas financiam um pool de recursos que é aportado num determinado projeto. A condição é que o projeto pague juros e o principal. Muito chamado de P2P lending também. 

 

O operacional varia. Em alguns casos o investidor investe diretamente numa empresa junto com outros investidores e se torna credor do projeto. Pode ser inclusive um investimento em uma outra pessoa física. Outro meio, o investidor investe num pool ou SPE que então faz empréstimos para algumas entidades ou pessoas físicas. No primeiro modelo há o maior controle por parte do investidor de onde o dinheiro dele vai, embora o risco aumenta devido a menor diversificação, problema a ser sanado pelo segundo meio descrito.

 

Algumas plataformas globais dessa modalidade são Lending Club, Upstart, Fundrise e Funding Circle. No Brasil existem Iouu, Kavod, Nexoos e Tutu digital, entre outras.

Equity crowdfunding

Um mercado que outrora era bastante regulado e restrito passou a se abrir para o modelo de crowdfunding também. Começando no fim dos anos 2000 no Reino Unido, o equity crowdfunding vem crescendo rapidamente. A partir de 2012 começou-se a desenvolver a regulamentação para esse mercado nos Estados Unidos através do Jumpstart Our Business Startups Act (JOBS Act). Esse processo finaliza em 2016, com a regulamentação da SEC para as plataformas autorizadas a fazer esse tipo de investimento.

 

No Equity Crowdfunding, empresas/projetos captam recursos de um público amplo de investidores, desde o investidor qualificado e institucional que coloca 100, 200, 300 mil dólares por projeto até o pequeno investidor do varejo, que investe $100. O investidor que participa da rodada de investimento compra uma participação no projeto investido. 

 

Nos Estados Unidos, os instrumentos jurídicos para esse investimento são diversos, podem ser:

  • Ações (preferenciais ou ordinárias): o investidor compra diretamente ações dessa empresa, equivalente a um percentual do valor da empresa.
  • Notas conversíveis em ações ("convertible note"): são instrumentos de dívida, na qual o investidor empresta dinheiro para a empresa na condição de que haja a conversão dessa dívida em um número de ações na rodada seguinte. O valuation máximo na rodada seguinte para a conversão do papel pode já ser definido na rodada ("valuation cap") ou estar em aberto ("uncapped"). Outros modelos, sendo o principal para investidores nos Estados Unidos, é o SAFE note.
  • Revenue Share Agreement (participação na receita): nesse caso, um percentual da receita do empreendimento é reservado para pagar os investidores do projeto até que se atinja um determinado múltiplo de retorno ou expire um prazo, conforme determinado na rodada. Exemplo: uma empresa busca um investimento e promete reservar 5% da receita para pagamento dos investidores até que se pague 3x o investimento original para cada investidor.

Para se ter uma noção, antes da regulamentação do JOBS Act, emissões públicas de participação em startups só podia ser feita após um IPO, com as ações cotadas em bolsa e com a empresa sendo obrigada a obedecer um altamente custoso compliance dos órgãos reguladores (completamente inviável para startups ou empresas menores). Outro ponto: as empresas não poderiam ofertar a sua rodada para o público. Somente para investidores qualificados com patrimônio líquido superior a 1 milhão de dólares.

 

A proposta de valor é muito atraente. A empresa Oculus VR, por exemplo, fez uma campanha de crowdfunding de recompensas pela Kickstarter, captando 2,5 milhões de dólares em 2012. Dois anos depois a mesma empresa foi vendida para o Facebook por US$ 2.000.000.000,00 (dois bilhões de dólares). E se os investidores do crowdfunding dois anos antes tivessem ganhado participação na empresa?

 

No Reino Unido as plataformas mais conhecidas são Crowdcube e Seedrs. Nos Estados Unidos são Wefunder, Startengine, Seedinvest, Microventures e CircleUp.

 

No fim de 2017 a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) trouxe o modelo para o Brasil. A CVM/588 adaptou a regulamentação americana para o cenário nacional, permitindo que empreendimentos de faturamento inferior a 10 milhões de reais podem fazer rodadas de investimento no modelo de crowdfunding. A oferta é dispensada dos registros de um IPO e pode arrecadar até R$ 5 milhões por rodada. É um modelo que se prova muito interessante para as startups que se encontram no estágio depois da aceleração e investimento anjo, mas não grandes o suficiente para receberem fundos de venture capital.

 

O instrumento da CVM/588 é um híbrido entre a ação e a nota conversível. O título de dívida conversível em ações (vamos chamar de somente “nota conversível”) utilizados para a modalidade no Brasil funciona de maneira semelhante a uma ação.

 

É um instrumento que garante ao investidor participação na rodada conforme o valuation ofertado e que carrega o valor econômico do projeto. Por exemplo, o investidor que investe R$ 30.000,00 numa empresa com “valuation” de R$ 3.000.000,00 estará comprando 1% em participação na empresa. Numa eventual compra da empresa ou qualquer outro evento em que haja a liquidação antes da conversão em ações, a conversão acontece e o investidor é remunerado conforme a valorização daquela participação. Se, na mesma empresa do exemplo, passa-se 2 anos e a empresa é comprada por uma empresa maior por R$ 30.000.000,00, a participação de 1% do investidor acompanha o valor e, nesse caso, há um retorno de 10x e um lucro da operação de R$ 270.000,00.

 

Por ser um “empréstimo” até a conversão, o investidor fica protegido de riscos comuns no Brasil, ligados a sociedade. São riscos como passivos trabalhistas que podem respingar nos sócios, dívidas e passivos tributários. O risco reside inteiramente no êxito ou não do projeto. Caso a empresa não consiga pagar o investidor de volta (nem o piso de remuneração atrelado ao CDI), a empresa será liquidada e o investidor receberá o que for apurado na liquidação.

 

No momento de conversão (após normalmente 5 anos do investimento), o investidor pode optar entre converter em ações e continuar na empresa ou ser remunerado. Outras maneiras de liquidação é a venda da empresa (no qual o investidor sai pelo valor do bloco do controlador), IPO e eventos nos quais novos investidores compram investidores antigos. Uma grande oportunidade será quando a CVM regular o mercado secundário onde investidores podem livremente transacionar entre si. Hoje, plataformas como a Cluster21 oferecem a possibilidade do investidor sinalizar a vontade de vender e a plataforma sai ofertando o ativo para o mercado, para a própria empresa ou outros investidores. Mas, claro, o investimento foi feito para ser de médio-longo prazo, então não deve ser feito se a ideia é rever o dinheiro em seis meses. 

 

Criamos a Cluster21 para poder ofertar a possibilidade de investimentos em projetos de potencial gigantesco para todos os perfis de investidores. Algumas rodadas tem investimentos tão baixos quanto R$ 500. Outras empresas do mercado são Eqseed e Kria.

 

Veja 5 motivos para se investir em startups pela Cluster21:

 

Existem ainda plataformas dentro da regulamentação CVM/588 voltadas para o mercado imobiliário. Por exemplo, conforme o site da Urbe.me, plataforma de crowdfunding imobiliário, eles disponibilizam dois modelos de investimento:

 

  • Modelo CVM 588: você adquire um título que lhe confere o direito a uma participação sobre o VGV (Valor Geral de Vendas) do empreendimento. Este título, na figura de um contrato de mútuo, será a sua garantia contra qualquer imprevisto.
  • Modelo OAV BACEN 2.921: você adquire um título emitido por uma instituição financeira, chamado CDBV (Certificado de Depósito Bancário Vinculado). Este título é vinculado a uma dívida do empreendimento em que você está investindo, com a instituição financeira parceira. Além disto, existe um contrato paralelo que atrela esta operação ao VGV (Valor Geral de Vendas) deste empreendimento.

 

Outras plataformas de crowdfunding imobiliário no Brasil são, além da Urbe.me e a Glebba.

Conclusão

Crowdfundings de modo geral já são realidade no mundo todo e permite desde fãs de uma banda de bancarem uma turnê até investidores institucionais e varejistas de alavancarem uma startup de potencial bilionário.

 

Independentemente de qual a sua ambição, confiar o sucesso de um projeto para a sabedoria das massas se tornou uma alternativa muito atraente e cada vez mais flexível. A atualização dos regulamentos dos órgãos governamentais tornou possível ofertar uma gama de instrumentos jurídicos de modo a satisfazer qualquer público alvo. O mercado fez o resto: não importa o tipo de projeto, há uma plataforma focada em lhe ofertar uma solução.