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Trump tem menos de 6 meses para criar novo discurso de campanha em meio à epidemia em recessão

Até março, quando os Estados Unidos começaram a ver o número de doentes crescer vertiginosamente, ele minimizava o problema e atribuía aos adversários políticos o alarme com o coronavírus.

11/05/2020 07h18Atualizado há 3 semanas
Por: Leonardo Brum
Fonte: BBC News
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"Recebendo ótimos comentários, finalmente, sobre o quão bem estamos lidando com a pandemia", escreveu o presidente americano Donald Trump, em sua conta de Twitter, no último dia 4, a menos de seis meses da eleição presidencial de novembro, na qual tentará ser reconduzido à Casa Branca.

O autoelogio em tom aliviado é um indicativo das aflições que atormentarão Trump nos próximos meses. Os Estados Unidos têm o maior número de casos e mortes por covid-19 do mundo, e o republicano teme que sua performance no combate à epidemia, que já levou à pior recessão americana no século, com 30 milhões de desempregados, possa abater sua candidatura.

Até março, quando os Estados Unidos começaram a ver o número de doentes crescer vertiginosamente, ele minimizava o problema e atribuía aos adversários políticos o alarme com o coronavírus.

Trump tinha a seu favor uma economia com crescimento estável e em situação de pleno emprego. Em janeiro, se desvencilhara de um processo de impeachment ao mesmo tempo em que acirrava as tensões com o Irã, no Oriente Médio, e colhia o resultado de um novo acordo de comércio com México e Canadá e um cessar fogo na guerra comercial com a China - temas populares entre seus apoiadores.

Até que o coronavírus, que Trump reputava menos grave do que uma gripe comum, mostrou seu potencial destruidor. De acordo com a avaliação de epidemiologistas, a doença pegou os Estados Unidos despreparados para fazer testagem em massa, rastrear os casos e isolar os doentes. Até 8 de maio, o país registrava cerca de 75 mil mortos e 1,2 milhão de infectados.

"Nos últimos 3 meses, as chances de Trump se reeleger diminuíram. Primeiro porque, até fevereiro, ele planejava fazer uma campanha centrada nos bons resultados da economia, e isso se perdeu completamente. Segundo porque os resultados até agora sugerem uma má gestão da crise de saúde pública, ele não estava preparado", afirma o cientista político Jonathan Hanson, da Universidade de Michigan.

Image caption Trump usou ainda as sessões de imprensa para culpar a China pela falta de informações sobre a periculosidade do vírus e adotou a expressão "vírus chinês" para se referir ao SARS-Cov-2

O show de Trump

Trump não ficou parado diante do derretimento de seu plano inicial de campanha. Ele adotou diferentes estratégias para tentar melhorar a percepção dos eleitores sobre seu trabalho.

A mais visível delas foi assumir, literalmente, o centro do palco e promover por mais de seis semanas conferências de imprensa diárias sobre os esforços do governo no combate ao coronavírus, transmitidas ao vivo pela internet e pela televisão.

Trump, que tem experiência como apresentador de reality show, fazia as vezes de um anfitrião em um programa de convidados, em que sucessivos especialistas da gestão - especialmente os médicos e pesquisadores da força-tarefa contra o vírus - explicavam as ações federais.

"Ver o presidente ir a público demonstrar que tem um plano e que pode coordenar os trabalhos é certamente algo que agradaria aos americanos", diz Hanson.

As sessões, no entanto, começaram a ficar cada vez mais longas (algumas duraram duas horas), os conflitos com a imprensa se multiplicaram (Trump chegou a dizer à repórter da rede CNN que não comentaria sua pergunta porque ela era "fake news") e o republicano acumulou declarações polêmicas, que acabavam desmentidas rapidamente, como a promessa de uma vacina em poucos meses ou de reabertura das atividades econômicas na Páscoa, o que não aconteceu.

Trump usou ainda as sessões de imprensa para culpar a China pela falta de informações sobre a periculosidade do vírus e adotou a expressão "vírus chinês" para se referir ao SARS-Cov-2. Também passou a tratar a Organização Mundial da Saúde (OMS) como responsável pela tragédia global, acusando a instituição de ser conivente com a falta de transparência chinesa. A estratégia servia ao mesmo tempo para retirar de si a culpa pela situação americana e para reafirmar o antagonismo em relação seu principal inimigo no jogo geopolítico.

"Esses eventos viraram uma espécie de comícios eleitorais em vez de transmissão de informação. E ele passou a promover potenciais tratamentos bizarros, nenhum comprovado. Em vez de torná-lo mais popular, as sessões começaram a gerar atenção negativa", afirma o cientista político William Winecoff, da Universidade Indiana.

Trump resistia a interromper as apresentações, apesar da pressão de republicanos no Congresso, que temiam que suas performances pudessem causar prejuízo nas campanhas para as eleições legislativas, também em novembro. O fim das transmissões se tornou inevitável depois que, no último dia 24, Trump sugeriu que injeções de desinfetante poderiam ser eficazes no combate ao coronavírus. As reações foram péssimas. Três dias depois do episódio, ele afirmou que suspenderia as conferências, porque elas "não valem o tempo e o esforço".

A julgar pelas pesquisas de popularidade, o republicano tem razão. Embora uma pesquisa do Intituto Gallup tenha indicado um ganho inicial de 5 pontos percentuais em aprovação (49%) em março, a pesquisa seguinte não sustentou a taxa, que ficou em 43%.

Em um compilado das pesquisas feita pelo site FiveThirtyEight, sua taxa de aprovação variou de 42% para 43% nas seis semanas em que ele manteve pronunciamentos diários. Situação muito diferente da de líderes europeus como a alemã Angela Merkel e o francês Emmanuel Macron, cuja aprovação cresceu 11 e 22 pontos percentuais, respectivamente.

"Na verdade, ao longo de todo o mandato, Trump manteve um nível de 40% de apoio, esse é aparentemente o piso dele. Qualquer outro presidente que dissesse qualquer um dos absurdos que Trump disse, teria visto o apoio ruir em meio ao escândalo. Isso não acontece com os apoiadores do Trump. No entanto, se pode contar com esse público, também é verdade que ele jamais convenceu a maioria dos americanos", diz Hanson.

Menos popular que os governadores 

Em resumo, a performance de Trump até o momento tem sido muito mais aprovada pelos eleitores republicanos (83,3% se dizem satisfeitos com sua gestão da crise), do que por democratas (13,4% de aprovação) e independentes (39,1% de apoio).

Se usar a imagem de líder gestor, culpar a China e apresentar soluções mágicas não pareceu comover ninguém além de sua já cativa audiência, Trump sabe que precisará oferecer mais para atrair as simpatias dos eleitores indecisos. E a resposta parece estar menos na questão da saúde pública, que preocupa cerca de 67% da população, e mais na condução da economia durante a epidemia, preocupação de 87% dos americanos.

"Trump parece acreditar que sua melhor chance de reeleição depende de retomar a economia, mesmo que isso leve a muito mais mortes. Mas é duvidoso que a economia melhore substancialmente no curto prazo, e, quando a economia vai mal em um ano eleitoral, isso geralmente é uma péssima notícia para o presidente que tenta reeleição", afirma Winecoff.

Com menos de seis meses para mostrar qualquer resultado que alivie a piora da economia, medida em retração de 4,8% do PIB no primeiro trimestre, Trump passou a pressionar os governadores dos 50 Estados a aliviar a quarentena e permitir o retorno de atividades econômicas.

Um de seus alvos preferenciais é Michigan, governado pela democrata Gretchen Whitmer, que tem sido cotada para o posto de candidata a vice do presidenciável democrata Joe Biden. Ali, Trump venceu por uma diferença de menos de 1% dos votos na disputa contra Hillary Clinton, em 2016. Sua vantagem foi construída graças ao discurso de proteção dos empregos dos operários brancos, afetados pela decadência do setor fabril no Estado. Duramente atingido pela pandemia e pela crise, Michigan tem hoje mais de 20% da população desempregada. As pesquisas eleitorais no Estado revelam vantagem de até dez pontos percentuais para o democrata Joe Biden sobre Trump.

"Tornou-se urgente criticar os governadores e tentar reabrir o país a qualquer custo. Trump acaba motivando movimentos como o do grupo armado que invadiu o Parlamento estadual de Michigan há alguns dias. Mas embora as cenas sejam impressionantes, eles são uma minoria na população. A maior parte do eleitorado apoia as medidas da governadora aqui e dos líderes estaduais em outras áreas", afirma Hanson, de Michigan. Ele se refere à ocupação do prédio legislativo por centenas de homens ostentando armamento pesado, como rifles, que exigiam o fim da quarentena, no último dia 1o.

A análise da opinião pública indica que o movimento de Trump tem pouca chance de dar certo. Uma pesquisa nacional com 22 mil americanos conduzida, há uma semana, pelas universidades Harvard, Rutgers e Northeastern mostrou que todos os 50 governadores do país possuem taxas de aprovação mais altas do que as de Trump. Na média, a vantagem de aprovação dos governadores sobre o presidente é de 22 pontos percentuais. "Trump está cometendo novo erro estratégico: criticando as pessoas em quem os americanos confiam muito mais do que nele mesmo e tentando mudar medidas que estão sendo aprovadas por enquanto", diz Winecoff.

O salvador da economia

Para Hanson, o movimento de Trump é calculado para dar a ele o único discurso eleitoral possível nesse momento: o do líder que voltou a fazer a roda da economia girar após uma crise. 

Esse, no entanto, será um discurso que ele terá que disputar com Joe Biden, seu adversário, e vice-presidente de Barack Obama entre 2009 e 2016. Obama e Biden foram eleitos em 2008 com a plataforma de resgatar o país da recessão que se iniciara naquele ano. Um ano depois de tomar posse, conseguiram fazer o país retomar um patamar consistente de crescimento.

"Se pensar bem, é um discurso arriscado para Trump, porque ele nunca enfrentou uma recessão antes. Biden pode usar a experiência de quem já tirou o país do atoleiro uma vez na campanha", opina Hanson.

Além de Michigan, outros swing states - que oscilam preferência entre democratas e republicanos a cada pleito - tem demonstrado preferência por Biden sobre Trump nas pesquisas.

Na Flórida, onde Trump venceu com menos de 2% de vantagem em 2016, as pesquisas eleitorais recentes têm indicado uma vantagem de quatro pontos percentuais para o democrata sobre o republicano. Na Pensilvânia, também vencida por Trump por menos de 1%, Biden aparece com vantagem de pelo menos cinco pontos percentuais na maior parte das sondagens eleitorais. Cenário parecido com o do Wisconsin, outro estado em que o republicano venceu apertado em 2016.

Image caption "Para fazer a reabertura, os Estados Unidos precisariam ter ao menos uma boa quantidade de testes disponíveis e condições de rastreamento de casos. Não temos nem um, nem outro", diz analista

"Biden não é um candidato entusiasmante, mas é visto como um líder competente, com muita experiência em várias posições governamentais. Se a crise aumentar em gravidade, esse tipo de perfil pode se tornar mais atraente para os eleitores", diz Winecoff.

A estratégia de Trump, segundo os especialistas, embute ainda um risco adicional: o de que a epidemia volte com força e provoque uma segunda onda de mortos às vésperas da eleição. "Para fazer a reabertura, os Estados Unidos precisariam ter ao menos uma boa quantidade de testes disponíveis e condições de rastreamento de casos. Não temos nem um, nem outro", diz Hanson.

O país segue com escassez de materiais básicos para exames, como os reagentes que indicam a presença do vírus na amostra coletada do paciente. E, de acordo com uma pesquisa da Universidade de Harvard, para reabrir a economia sem gerar uma nova leva de contágios em massa, seria necessário testar semanalmente até 21% da população, para garantir que infectados sejam retirados de circulação rapidamente e que o número de novos casos da doença não ultrapasse o limite do número de leitos hospitalares.

"Se os Estados Unidos acabarem com centenas de milhares de mortes e 25% de desemprego na época das eleições, será muito difícil para Trump vencer nessas circunstâncias. Mas se as crises atingirem o pico no verão (junho) e melhorarem no outono (outubro), Trump fará campanha na tendência de melhora, e não no fundo do poço, e terá chances de vencer", resume Winecoff.

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