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Juros

Selic: Copom vai cumprir promessa de corte para 2,25%, e pode não ser o último

O consenso entre os economistas é de uma nova redução de 0,75 ponto percentual, de 3% para 2,25% ao ano, menor patamar da história e confirmando o corte máximo contratado na última reunião em maio pela autoridade monetária.

17/06/2020 07h15
Por: Leonardo Brum
Fonte: Reuters
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O Comitê de Política Monetária (Copom) iniciou nesta terça-feira a reunião de dois dias para nova decisão de política monetária do colegiado, que será divulgada amanhã após o fechamento do mercado. O consenso entre os economistas é de uma nova redução de 0,75 ponto percentual, de 3% para 2,25% ao ano, menor patamar da história e confirmando o corte máximo contratado na última reunião em maio pela autoridade monetária.

No entanto, os economistas divergem sobre o tom do comunicado da decisão. O principal ponto de discordância é se o Banco Central encerra o atual ciclo de afrouxamento monetário e mantenha a taxa em 2,25% até a economia brasileira se recuperar da crise provocada pela pandemia de Covid-19, ou se, na avaliação dos membros do Copom, há espaço para mais cortes, buscando convergir a taxa Selic a “menor taxa efetiva” (effective lower bound em inglês, veja mais informações no fim do texto).

Comunicado

Na avaliação do banco ING, em relatório assinado pelo economista-chefe para a América Latina Gustavo Rangel, o mercado está precificando um cenário que os membros do Copom realizem o corte programado, “mas sem fechar a porta completamente, para uma redução adicional”. As portas para novos cortes ficarão escancaradamente abertas se o comunicado sugerir que, “casos as condições do mercado se modifiquem com a intensificação das incertezas e prognóstico de uma profunda recessão, o banco (central) não descartaria reduzir ainda mais a taxa de referência”, segundo a avaliação de Rangel sobre a visão média do mercado.

Para o economista-chefe do Itaú BBA, Mario Mesquita, o comunicado não vai sinalizar a manutenção de possibilidade de mais cortes nas reuniões vindouras após a decisão de levar a Selic a 2,25%. De acordo com relatório da instituição, Mesquita avalia que o Copom deve continuar enfatizando o atual cenário incerto da economia.

Além disso, o economista do Itaú analisa que, diante das defasagens com as quais a política monetária geralmente opera, “o Copom deve sinalizar a interrupção do ajuste monetário, entrando em um período de observação para avaliar os efeitos de decisões recentes e assim definir seus próximos passos”.

Prognóstico semelhante ao de Mesquita tem os economistas Rafael de la Fuente, Fabio Ramos e Andrea Casaverde do UBS, que não veem espaço para mais cortes após a reunião dessa semana, segundo relatório enviado a clientes. Os economistas preveem uma recuperação da atividade econômica no segundo semestre, após o mergulho de março e abril com as medidas de isolamento social para combater a pandemia de Covid-19, apresentando uma tendência de crescimento de longo prazo do PIB de 2% a 2,5% por ano.

Deterioração fiscal

Além disso, com a projeção da dívida pública bruta atingindo 100% do PIB, adiciona-se mais um fator de risco inflacionário na balança de risco do Copom, segundo os economistas do UBS, que projetam a manutenção da taxa básica de juros em 2,25% até o ano que vem. Além de prever o início do ciclo de alta da Selic no fim do ano que vem, quando a taxa de juros deve chegar a 4,5%.

Mesquita, do Itaú BBA, adiciona a atual elevação da deterioração fiscal como um fator importante para o debate acerca da sustentabilidade de taxas de juros baixas no médio prazo. Entretanto, o economista entende que, como o objetivo da política monetária é atingir a meta de inflação (4% em 2020 e 3,75% em 2021), pressões desinflacionarias persistentes podem reduzir as projeções inflacionárias e, com isso, criar condições para mais cortes da Selic no futuro, junto com a alta capacidade ociosa da economia.

A questão fiscal também é limitante para uma taxa de juros abaixo de 2,25% para Rafaela Vitória, economista-chefe do Banco Inter (SA:BIDI4). Em relatório enviado a clientes, a economista afirma que Copom vai cumprir o corte de 0,75 ponto percentual da taxa Selic, especialmente após maio registrar segundo mês seguido de deflação, quando o IPCA do quinto mês do ano caiu 0,38% em relação a abril e desacelerou para 1,88% no acumulado dos últimos 12 meses.

Apesar de ressaltar o caráter desinflacionário da crise do coronavírus, Vitória relembra que o Banco Central já havia indicado que, “diferentemente de países desenvolvidos com baixo risco fiscal, o espaço para novas quedas da Selic seria limitado considerando o atual patamar.

Desafios

Já para Alberto Ramos e Paulo Mateus, economistas do Goldman Sachs, o Copom vai confirmar a promessa de queda de 75 pontos-base na taxa Selic, devido a uma “forte contração da atividade econômica e uma deterioração significativa do mercado de trabalho (maior aumento do hiato do produto), visivelmente abaixo da meta de inflação, incluindo o núcleo, abaixo das expectativas de inflação abaixo da meta 2020-21 e condições monetárias globais altamente acomodatícias”.

No entanto, os economistas do Goldman Sachs enfatizam aumento do risco inflacionário no balanço de risco do Banco Central, com preocupações sobre a taxa de câmbio e fluxos de capital, riscos políticos e fiscais de médio prazo remanescentes e devido à taxa Selic já estar em um nível acomodatício sem precedentes.

Em relação ao comunicado, Ramos e Mateus avaliam que os membros do Copom vão sinalizar que o cenário base não acarreta em cortes adicionais na taxa Selic, “mas sem eliminar completamente a possibilidade de oferecer acomodação adicional em caso de desvio significativo do cenário central”, deixando em aberto que o Banco Central busque uma taxa de juros abaixo de 2,25%. Na avaliação dos economistas do Goldman, o “Copom provavelmente passará para uma posição dependente de dados, na qual uma maior deterioração das perspectivas de crescimento e/ou mais quedas na inflação projetada em relação às metas de inflação para 2021-22 podem eventualmente levar a uma nova rodada de cortes”.

Ramos e Mateus seguem as avaliações de Itaú BBA, UBS e Banco Inter em relação ao risco fiscal crescente, que poderia reduzir a possibilidade de uma política monetária ainda mais acomodatícia.

Pressões desinflacionárias e capacidade ociosa

As pressões desinflacionárias e a alta capacidade ociosa são captadas nas estimativas dos economistas de mercado no último Boletim Focus, divulgado na segunda-feira. Apesar de as projeções inflação se elevarem de 1,53% na semana passada para 1,6% no fim de 2020, ela continua abaixo da tolerância mínima de 1,5 ponto percentual abaixo da meta de inflação de 4% estipulado para este ano. Além disso, as projeções do IPCA para 2021 continuaram caindo, de 3,1% para 3%. Já para o PIB, as apostas se deterioraram pela 18ª semana seguida, com os economistas de mercado ouvidos pelo Banco Central projetando uma queda de 6,51% do PIB este ano (contra 6,48% na semana passada), mas mantendo a recuperação econômica em 2021 com um crescimento estimado em 3,5%.

Effective lower bound

 O diretor de Política Econômica do Banco Central, Fabio Kanczuk, afirmou no dia 3 de junho que o nível de 2,25% para a Selic não é algo "escrito na pedra" e reiterou que o BC está longe de um limite a partir do qual a redução dos juros perderia eficácia, razão pela qual pode continuar a fazer política monetária como usualmente.

"Não vi esse 2,25% como algo que foi escrito na pedra, algo fixo, que temos que ter em mente e não podemos cruzar", disse ele em inglês, ao participar de evento virtual promovido pela American Chamber of Commerce.

Kanczuk ressaltou que, na sua visão, este patamar é muito mais ligado à política monetária ótima focada no hiato do produto (ociosidade da economia) e no risco para a taxa neutra de juros, do que a um 'effective lower bound' --nível de juros abaixo do qual a política monetária perde eficácia para estimular a economia.

De acordo com a colunista do Investing.com Marília Fontes, da Nord Research, o conceito de "lower bound" foi criado nos países desenvolvidos, que levaram suas taxas de juros para zero e se perguntaram se valia a pena cair para negativo para gerar mais estímulos. Mas, no Brasil, a discussão tomou outra forma, pois se a taxa de juros americana é zero, quanto poderia ser a Selic? Se fosse zero também, será que não teria uma fuga maciça de capital para fora, provocando uma desvalorização agressiva da nossa moeda?

Segundo Marília, o que se tem discutido no BC e entre alguns economistas é que a taxa mínima brasileira seria igual a taxa americana mais o prêmio de risco brasileiro.

Na avaliação de Kanczuk, no evento da American Chamber of Commerce, “lower bound” não é o melhor nome para descrever o que aconteceria no país, uma vez que o termo sugere que, ultrapassado um determinado limite, algo muito diferente seria acionado, como mudança de direção da política monetária.

Para Kanczuk, abaixo desse limite --que é dinâmico e varia conforme as premissas levadas em conta para seu cálculo-- a Selic mais baixa ainda implicaria inflação mais alta, parte via canal do câmbio.

"A questão aqui que o Banco Central está preocupado tem mais a ver não com inflação, mas com estabilidade financeira e como depreciações muito grandes podem machucar o crescimento e especialmente as empresas que não têm um hedge perfeito", afirmou ele.

Na avaliação de Rangel, do ING, o “effective lower bound” da economia brasileira seria uma taxa Selic igual ou acima de 1,5%, abrindo um espaço para um corte adicional de 75 pontos-base após a reunião do Copom dessa semana. Mesmo assim, o economista-chefe do ING ressalta que alguns membros do banco central e muitos analistas avaliam que cortes além 2,25% já representariam alguns riscos, como eventual desestabilização do mercado de câmbio com aumento drástico da demanda por dólar sob certas condições de arbitragens.

Apesar de defender a visão de que o Copom deveria sinalizar o fim do ciclo atual de afrouxamento monetário devido a risco de descontrole cambial, Rangel segue o consenso de mercado de um comunicado sinalizando cautela após reduzir a taxa Selic para 2,25%, sem fechar as portas para novos cortes, devido a projeções de recessão profunda na atividade econômica no curto prazo, visão semelhante a de Ramos e Mateus do Goldman Sachs.

*Com Reuters