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Carreira

Os benefícios do estresse para a produtividade

Os seres humanos são antifragilidade: precisamos de fatores de estresse para nos tornarmos fortes

04/05/2021 08h18
Por: Leonardo Brum
Fonte: Forbes
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Os seres humanos são antifragilidade: precisamos de fatores de estresse para nos tornarmos fortes
Os seres humanos são antifragilidade: precisamos de fatores de estresse para nos tornarmos fortes

 

Você pode achar este texto estressante – e eu espero que você ache porque o estresse não é algo para se evitar ou fugir: é um sinal de que estamos nos desafiando, aprendendo e crescendo.

Os seres humanos são antifragilidade: precisamos de fatores de estresse para nos tornarmos fortes. Os astronautas devem se exercitar diariamente ou perdem o tônus ​​muscular e a densidade óssea, e o mesmo acontece com a mente: se não praticarmos, enferrujamos. A quantidade certa de estresse aumenta nossa capacidade de resiliência e nos permite lidar com situações novas e desconcertantes – como a que enfrentamos desde o ano passado.

Claro, muito estresse pode ter o efeito oposto do desejado, minando nossa resiliência e capacidade de enfrentamento. Nenhuma organização deve se basear na pressão, como aqueles casos de empresas onde os funcionários trabalham 95 horas por semana e ainda perguntam: “Por favor, senhor, posso fazer algo mais?”

Neil Young canta que é melhor queimar do que enferrujar. Na verdade, é  melhor não fazer nenhum dos dois. Em vez disso, precisamos encontrar a quantidade perfeita de estresse benéfico que mantenha as equipes constantemente engajadas, aprendendo e crescendo.

Bom estresse, mau estresse

O que resiliência significa para você? Para muitas pessoas, é a capacidade de “agarrar”: lidar com a pressão e ser capaz de não desatar. Mas o que muitas vezes é esquecido é a sensação de recuperação em face das adversidades ou mudanças.

Experimentar o tipo certo de estresse recarrega nossa capacidade de trabalhar sob pressão. Chamamos isso de estado de desafio, onde nossas mentes estão perfeitamente preparadas para o que quer que seja lançado sobre nós. Quando somos desafiados, nosso pensamento tem muito mais probabilidade de ser criativo, lógico, perspicaz e estratégico. Além do mais, um estado elevado de alerta e vigilância nos torna mais consistentes em nossos comportamentos e desempenho.

Compare isso com o estado de ameaça: é a resposta defensiva de lutar ou fugir que surge quando estamos sobrecarregados. Esse cenário nos faz escapar dos desafios e nos torna propensos a tomar decisões erradas, aumentando o raciocínio emocional e as chances de uma catástrofe. 

O estado de ameaça é particularmente prejudicial em contextos de equipe. Uma quebra na cadeia de relacionamentos pode afetar outros indivíduos, ameaçando-os e prejudicando a coesão e a eficácia do grupo.

Para promover a resiliência, precisamos de uma maneira de absorver os choques do cotidiano, como aquela granada inesperada lançada em seu dia de trabalho já cheio. Quando o inesperado acontece, precisamos recorrer aos recursos de toda a equipe, para que as tensões sejam distribuídas uniformemente de acordo com a capacidade de adaptação de cada indivíduo.

Drene e ganhe

É justo dizer que comprar um novo aspirador de pó não era uma prioridade para a maioria das pessoas quando a pandemia começou. Portanto, a Dyson poderia facilmente ter entrado em estado de ameaça, interrompendo as operações e cortando custos em uma tentativa de sobreviver à crise que se aproximava.

Mas a equipe da empresa fez exatamente o oposto. Eles partiram para a ofensiva e aplicaram suas habilidades para resolver um dos maiores desafios que os Estados Unidos enfrentava: a escassez de ventiladores para pacientes graves com Covid-19. Trabalhando 24 horas por dia, a companhia desenvolveu um novo ventilador em apenas 30 dias. Este é um ótimo exemplo de uma organização inteira operando em estado de desafio. Mas como eles chegaram lá?

Pense na resiliência como uma bateria. Assim como podemos descarregá-la por tensões negativas, também podemos recarregá-las com a mentalidade positiva. Exemplos disso são os sensos de propósito compartilhados, assim como metas coletivas e a capacidade de mudar prioridades rapidamente. Por outro lado, a falta de valores comuns e de uma liderança clara são exemplos de situações que  “drenam” nossa resiliência.

A Dyson claramente não se vê como uma mera fabricante: ela se identifica como uma solucionadora de problemas. Essa mudança sutil, porém profunda, de pensamento é usada por muitos grupos, desde empresas até grandes esportistas, e lhes conferem uma vantagem competitiva crucial. Pergunte a si mesmo se suas equipes lidaram com a crise de forma tão eficaz quanto podiam, ou se teriam respondido melhor se tivessem sido capazes de maximizar os ganhos e minimizar os danos.

A caixa de ferramentas de estresse

Propósito compartilhado, valores comuns, objetivos coletivos: essas são palavras adoradas na sala de reuniões (e com razão), mas você não pode apenas desejar que elas existam do nada. A criação de uma cultura de resiliência começa com a construção de uma caixa de ferramentas e de técnicas para fomentar o apoio mútuo e, ao mesmo tempo, permitir que os líderes avaliem constantemente se os funcionários estão em situação de desafio.

A primeira ferramenta é o sistema de camaradagem, que não é apenas um relacionamento individual, mas um espaço seguro para qualquer pessoa desabafar, levantar dúvidas, preocupações e apoiar uns aos outros. Esse sistema não se trata apenas de autocuidado: feito da maneira certa, ele oferece a oportunidade para que todos tenham uma perspectiva diferente da sua. Isso é especialmente importante quando estamos caindo no estado de ameaça e nosso julgamento fica turvo, tendendo à autodefesa.

Em segundo lugar,  implemente um sistema de check-in diário. Não apenas pergunte às pessoas como elas estão; a maioria só responde com “Estou bem”, mesmo quando não estão. Em vez disso, peça a todos que se deem uma pontuação de um a dez. Isso não apenas provocará respostas mais honestas, mas também permitirá que os líderes prevejam quão bem cada funcionário está preparado para os desafios do dia que se aproxima, identificando quem pode estar vulnerável ou precisando de apoio. Este é o sistema usado em muitas alas da linha de frente ao combate da  Covid-19, onde os líderes de equipe pontuam os trabalhadores no final do turno.

As empresas prosperam com dados, então por que evitar as informações mais valiosas que se possa imaginar? Algo tão simples como rastrear a resiliência das pessoas ao longo do tempo permite que você identifique quando elas precisam ser poupadas para se recuperar, enquanto o resto da equipe pega firme. 

A terceira ferramenta envolve a construção de um senso de empoderamento pessoal dentro de cada trabalhador. Isso pode soar vago, até insosso. Mas é  tudo, menos isso. Esse fortalecimento tem tudo a ver com a autoconsciência, uma qualidade que aumenta e diminui dependendo do estado mental da pessoa.

Em momentos de incerteza, tendemos a ser autocríticos e esquecer o valor que agregamos à equipe.

O empoderamento se baseia em ajudar as pessoas a construir e reter uma compreensão de suas habilidades, comportamentos, conhecimentos e atitudes: como contribuem e o que precisam dos outros para ter o melhor desempenho possível.

Você não deve esperar a construção de uma cultura de resiliência da noite para o dia, nem deve tentar. Afinal, você não pode instituir uma revolução no local de trabalho antes que as equipes estejam prontas para responder bem a mudanças repentinas. Mas um pequeno investimento pode ter um impacto enorme, e o que começa como um processo bastante estranho logo se tornará uma parte natural da abordagem das pessoas. Você verá rapidamente os benefícios à medida que os times começarem a aceitar essa nova postura. 

Então, se você está se sentindo um pouco estressado com a tarefa que tem pela frente, ótimo. Isso significa que você leva a sério o desenvolvimento de uma vantagem competitiva que beneficiará sua empresa por muitos anos.