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Crise Hídrica

Crise hídrica aumenta desafios para PIB em 2022 e levanta alerta de estagnação, dizem analistas

Já 2022 deve apresentar forte desaceleração, com a possibilidade inclusive de estagnação da economia caso o racionamento de energia elétrica se concretize diante da crise hídrica.

02/09/2021 06h40
Por: Leonardo Brum
Fonte: Reuters
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© Reuters. Vendedor usando máscara e viseira de proteção espera por consumidores em loja no Rio de Janeiro 01/09/2020 REUTERS/Ricardo Moraes
© Reuters. Vendedor usando máscara e viseira de proteção espera por consumidores em loja no Rio de Janeiro 01/09/2020 REUTERS/Ricardo Moraes

 

O resultado abaixo do esperado da economia brasileira no segundo trimestre até provocou revisões para baixo na expectativa para este ano, mas o sinal de alerta está aceso mesmo é para 2022, com a possibilidade de crise hídrica somando-se a outros riscos e colocando a possibilidade de estagnação no radar.

Sob o peso do fraco desempenho da indústria e da agropecuária, o Produto Interno Bruto brasileiro registrou queda de 0,1% no segundo trimestre, contra uma expectativa de 0,2% em pesquisa da Reuters. Alguns economistas já revisaram levemente suas estimativas para o ano, mas nada que altere significativamente a projeção de um crescimento de até mais de 5%.

Já 2022 deve apresentar forte desaceleração, com a possibilidade inclusive de estagnação da economia caso o racionamento de energia elétrica se concretize diante da crise hídrica.

"O que me deixa mais preocupado é para a frente, quarto trimestre, ano de 2022. O risco hídrico, se se concretizar, o PIB do ano que vem tem uma possibilidade de caminhar para zero", afirmou o diretor de pesquisas para América Latina do BNP Paribas, Gustavo Arruda.

"Não é nosso cenário base, mas tem que levar em consideração. Reservatórios em baixa não é algo que se resolva rápido. O que aprendemos é que o risco é pequeno, mas está aumentando", completou Arruda, que calcula crescimento de cerca de 5% este ano e de 1,5% para 2022 sem considerar a questão hídrica.

O Brasil vive a maior seca em mais de 90 anos na área das hidrelétricas, e medidas vêm sendo adotadas pelo governo para evitar que a falta de chuvas se transforme em cortes ou escassez de energia.

O governo já anunciou metas de redução de consumo para prédios públicos e diretrizes para incentivar cortes voluntários no mercado livre.

Na terça-feira, foi determinada ainda a implementação da bandeira tarifária "escassez hídrica", que trará aumento adicional de 6,78% na tarifa média dos consumidores regulados.

Assim, as atenções se voltam para novembro, quando começa o período de chuvas no Brasil. A eletricidade acaba sendo um componente importante para o crescimento, sendo um limitador da atividade em duas frentes na hipótese de racionamento --aumento da inflação e impactos sobre a indústria.

Luka Barbosa, economista do Itaú Unibanco, calcula que para cada 1% de queda no consumo de energia, o PIB perde 0,2 ponto percentual. Ele ressalta, entretanto, que embora a crise hídrica seja um risco importante, a probabilidade de racionamento é de 10% em suas contas, o que ele considera baixa.

Os cálculos de Barbosa apontam para um crescimento do PIB de 5,7% este ano, caindo a 1,5% em 2022. Vários são os fatores para essa desaceleração já incorporados no cenário, destacadamente o fato de que os motores que geraram crescimento em 2021 vão se esgotar.

"A política monetária expansionista deve ser contracionista ano que vem. Além disso, o efeito de reabertura do setor de serviços fica restrito ao segundo semestre deste ano, e não terá mais esse efeito positivo no ano que vem", disse ele.

Para domar as pressões inflacionárias, o Banco Central, que vem elevando a Selic, agora em 5,25%, já apontou que a necessidade é de uma taxa básica de juros acima do patamar neutro, ou seja, em nível suficiente para desaquecer a economia. A expectativa do mercado é que a taxa feche este e o próximo em 7,50%, segundo o mais recente relatório Focus do BC.

A política fiscal para 2022 também está envolta em incertezas, com o governo ainda negociando uma fórmula para amenizar o impacto crescente das despesas dos precatórios dentro da regra do teto de gastos, e ainda sem definições claras sobre o Bolsa Família ou eventuais novas medidas de auxílio. Isso em ano eleitoral, que tradicionalmente estimula aumento de despesas.

Tudo isso garante o cenário desafiador à frente.

"A grande dicussão em relação ao cenário da atividade econômica é a capacidade de crescimento em 2022. Cada vez se vê mais riscos no radar", disse o economista da XP Rodolfo Margato.

"A questão fiscal, com muitas incertezas do lado das contas públicas, tem preocupado os agentes. E ainda há o espalhamento da variante Delta (do coronavírus) em algumas regiões do mundo. Há um conjunto de riscos no radar que têm levado a projeções baixistas no PIB de 2022."