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China

A jogada da China contra Opep no petróleo; ouro refém da política do Fed

É uma jogada audaciosa. Ao tentar controlar a inflação internamente, Pequim com efeito está suprimindo o preço global do petróleo, usando o que acumulou para só comprar novamente no mercado externo quando o preço estiver certo.

13/09/2021 06h26
Por: Leonardo Brum
Fonte: Investing
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Provavelmente, demorou meses demais. Mas a China finalmente fez o que vem ensaiando desde que os problemas com a sua inflação explodiram: cortar parte de suas caras importações de petróleo fazendo circular as suas reservas.

É uma jogada audaciosa. Ao tentar controlar a inflação internamente, Pequim com efeito está suprimindo o preço global do petróleo, usando o que acumulou para só comprar novamente no mercado externo quando o preço estiver certo. Como o maior importador de petróleo bruto, as compras da China são observadas de perto como um indicador da demanda. Se ela comprar mais, o preço irá subir, e o contrário também é verdade.

Numa analogia com um casino, o que Pequim está fazendo é apostar contra a banca, sendo que, nesse caso, a "banca" é a OPEP e seus aliados. E essa é uma banca complicada de se encarar.

Com grãos e metais, quando há corte nas compras, os vendedores nos países produtores geralmente permitem que os preços caiam o bastante para que as vendas sejam retomadas. Porém, com a Organização dos Países Exportadores de Petróleo e seus aliados, provavelmente vai ocorrer o contrário. Depois que os preços do petróleo começarem a cair de maneira constante e significativa, a aliança irá se organizar para reduzir a produção e forçar uma alta no mercado - muitas vezes num patamar acima do nível de ontem caíram.

Até onde os chineses vão neste jogo vai depender da tolerância dos 23 países da OPEP+, que inclui os 13 membros da OPEP, liderados pelos sauditas, e os seus dez aliados produtores de petróleo capitaneados pela Rússia.

Desde que retomaram o controle do mercado de petróleo, cuja demanda foi dizimada desde o auge da pandemia do coronavírus, os inabaláveis cortes na produção da OPEP+ permitiram que os preços da commodity fossem negociados em múltiplos das suas mínimas de 2020. A aliança só agora começou a incrementar a produção. Mas ela pode desfazer isso num piscar de olhos se as liberações de estoques da China se revelarem prejudiciais para o mercado.

A atividade do mercado nas 48 horas após o anúncio da China também mostrou como a vitória do país asiático pode ser efêmera.

Os preços do petróleo tropeçaram quase 2% imediatamente após a decisão sobre os estoques. Mas no pregão posterior em si, o mercado recuperou dois terços do que tinha perdido com a redução da oferta nos EUA devido ao furacão Ida. A recuperação também foi ajudada por sinais de melhorias nas relações sino-americanas, depois de um cordial telefonema entre Xi e Biden (é irônica que, enquanto a China tentava baixar os preços o petróleo por um lado, ela os impulsionou indiretamente por outro).

De qualquer forma, não se trata de como o mercado se comporta um dia ou o outro. Trata-se de saber se Pequim será efetivamente capaz de manter a inflação do petróleo em baixa. E há opiniões contraditórias sobre esse poder.

Alguns comentaristas de longa data do mercado, como John Kilduff, do fundo de hedge energético Again Capital, de Nova York, acham que o peso da mão da China na situação é sobrestimada.

"Com base no seu sucesso anterior com metais e outras commodities, eles pensam que também têm o toque de Midas para gerenciar a inflação na sua economia através de controles sobre os preços do petróleo", afirmou Kilduff. "Eles podem ter alguns gatilhos para disparar, mas nunca serão de grande duração, considerando a contrarreação que podemos esperar da OPEP+. No longo prazo, a China provavelmente descobrirá da pior maneira que é difícil sustentar isso".

A Administração Nacional de Alimentos e Reservas Estratégicas da China afirmou que a sua liberação de estoques se destinava "a aliviar a pressão do aumento dos preços das matérias primas". A agência afirmou que um rodízio "normalizado" do petróleo nos estoques estatais é "uma forma importante de os estoques desempenharem o seu papel no equilíbrio do mercado". A agência também disse que colocar as reservas nacionais de petróleo no mercado através de leilões abertos "irá estabilizar melhor a oferta e demanda no mercado interno".

Sabemos por que a China está fazendo isso. Algumas das suas fábricas já estão cortando a produção em função de uma combinação de custos de energia elevados e escassez de eletricidade. A inflação na porta da fábrica na 2ª economia do mundo acelerou em agosto, para uma máxima em 13 anos.

A pergunta, porém, é se Pequim tem reservas suficientes de petróleo para jogar os 90 minutos dessa partida.

O último dado divulgado publicamente sobre o chamado SPR da China, ou Reserva Estratégica de Petróleo, em 2017, foi de um total de 237,66 milhões de barris.

Isso está de certa forma alinhado com a estimativa da empresa de consultoria Energy Aspects Ltd para os atuais estoques chineses: 220 milhões de barris.

Tão importante quanto os estoques é o consumo. Segundo a CEIC, outra consultoria, a China consome cerca de 14,2 milhões de barris por dia.

Dada a sua necessidade dinâmica de petróleo, não há como a China ficar sem importar petróleo por muito tempo. Nem devemos esperar isso. O que a China pode fazer, em vez disso, é uma importante liberação de estoques sempre que o mercado de petróleo estiver - ou parecer estar - superaquecendo. Isso poderia ser eficaz para interromper choques nos preços do petróleo, mesmo que não os pressione o tempo todo. Desta forma, a China consegue o que quer sem desencadear a ira da OPEP+.

Alguns afirmam que a China surge como uma nova força negativa contra o petróleo, colocando em xeque as perspectivas de demanda pela commodity. A partir de agora, Pequim não pode mais ser visto como apenas uma animadora de torcida nos super ciclos de commodities; também pode ser um urso silencioso quando os preços não seguem a trajetória desejada ou prejudicam sua economia.

"O mercado do petróleo está deficitário. Mas esta história da China pode perturbar a sua permanência em déficit ao longo do resto do ano", afirmou Ed Moya, analista da plataforma de negociação online OANDA.

Osama Rizvi, analista de energia da Primary Vision Network, diz que a China pode ser um dos motivos pelos quais o petróleo não atinge US$ 100 por barril.

"A China acumulou uma enorme quantidade de petróleo quando os preços atingiram o menor nível em 20 anos e, à medida que os preços continuam subindo, a China terá um incentivo cada vez maior para utilizar as suas reservas em vez de importar petróleo caro", disse Rizvi. "Embora seja improvável que isto altere os fundamentos subjacentes do mercado de petróleo. a redução das importações chinesas certamente é um dos fatores que poderia finalmente alavancar uma mudança nos ânimos do mercado da commodity".

Resumo dos mercados e dos preços do petróleo e gás

O petróleo subiu rapidamente para uma máxima de US$ 73 por barril na sexta-feira, suportado por sinais crescentes de queda no fornecimento nos Estados Unidos em função do furacão Ida e enquanto as esperanças comerciais entre EUA e China impulsionaram os ativos mais arriscados.

O Brent, negociado em Londres e referência global para o petróleo, fechou a US$ 72,92 por barril, uma alta de US$ 1,47 ou 2,1%. Na semana, o Brent subiu 0,4%.

O petróleo WTI, negociado em Nova York e referência do petróleo nos EUA, fechou a US$ 69,72 por barril, alta de US$ 1,58, ou 2.3%. Na semana, o WTI teve aumento de 0,6%.

Os preços do gás natural, entretanto, fecharam em baixa na sexta-feira, mas ainda terminaram a semana em alta. O contrato mais ativo de gás para outubro no Henry Hub da NYMEX fechou o dia com queda de 1,9%, a US$ 4,938 por mmBtu, ou milhões de unidades térmicas métricas britânicas. Na semana, o contrato à vista de gás avançou 4,8%, estendendo o ganho de 7,8% da semana passada e de 13,5% da semana anterior.

Os preços do gás dispararam desde o início do ano em função de extremos meteorológicos e produção decepcionante. O rali ganhou mais impulso este mês após o furacão Ida forçar a parada de inúmeras unidades de produção de gás no Golfo do México.

No ano, os preços do gás subiram 95%, com analistas estimando que podem alcançar US$ 6 por mmBtu na sequência.

Calendário dos mercados de energia

Segunda-feira, 13 de setembro

Estimativas de estoques em Cushing

Terça-feira, 14 de setembro

Relatório semanal de estoques de petróleo do American Petroleum Institute.

Quarta-feira, 15 de setembro

Relatório semanal da EIA sobre estoques de petróleo bruto

Relatório semanal da EIA sobre reservas de gasolina

Relatório semanal da EIA sobre inventários de destilados

Quinta-feira, 16 de setembro

Relatório semanal da EIA sobre armazenamento de gás natural

Sexta-feira, 17 de setembro

Pesquisa semanal da Baker Hughes sobre plataformas de petróleo dos EUA

Resumo do mercado e dos preços do ouro

O ouro registrou sua primeira perda semanal em cinco semanas, após a breve euforia nos longs em função do decepcionante relatório do emprego nos EUA para agosto dar lugar ao desespero pela recuperação do dólar na sequência de rumores incessantes de tapering do estímulo econômico por parte do Federal Reserve (Fed).

Os contrato futuros do ouro para um mês mais ativos na Comex de Nova York fecharam em queda de US$ 7,90, ou 0,4%, a US$ 1.792,10 por onça. Na semana, houve uma queda de 2,3%, a maior desde a semana de 29 de julho. Também foi a primeira perda semanal do ouro na Comex desde o final de julho.

A queda do ouro na sexta-feira foi em parte pressionada por dados que mostram que os preços aos produtores dos EUA subiram 8,3% em agosto, o maior aumento em mais de uma década, à medida que a pressão inflacionária subiu incansavelmente numa economia que tenta se livrar das correntes da pandemia de coronavírus.

O programa de estímulo do Fed e outras acomodações monetárias foram responsabilizados por agravarem as pressões dos preços nos Estados Unidos.

O banco central vem comprando US$ 120 bilhões em títulos e outros ativos desde o início da pandemia de Covid-19, em março de 2020, para ajudar a economia. O banco central também vem mantendo as taxas de juros em níveis praticamente zero nos últimos 18 meses.

A questão de quando o Fed deve reduzir seu estímulo e aumentar as taxas de juros tem sido amplamente debatida nos últimos meses, já que a recuperação econômica entrou em conflito com o recrudescimento da variante delta do coronavírus. Entretanto, o argumento a favor do tapering se enfraqueceu consideravelmente após o crescimento do emprego nos EUA em agosto ter atingido um nível 70% abaixo da meta dos economistas.

A princípio, o dólar titubeou com esse relatório de emprego, alimentando o rali do ouro, que alcançou a máxima em quatro semanas, a quase US$ 1.837. Mas, quase que imediatamente na sequência, o Índice do dólar, que coloca o dólar contra seis outras moedas principais, se recuperou, arremessando o ouro para uma queda pouco acima dos US$ 1.783.

Após recuar 3,5% em 2020, devido ao fechamento das empresas em função da Covid-19, a economia dos EUA se expandiu de forma robusta este ano, aumentando 6,5% no segundo trimestre, em linha com as previsões do Federal Reserve.

O problema do Fed, no entanto, é a inflação, que tem superado o crescimento econômico.

O indicador preferido do Fed para a inflação - o índice de Despesas de Consumo Pessoal, que exclui os preços voláteis de alimentos e energia - subiu 3,6% no ano até julho, seu valor mais elevado desde 1991. O índice PCE incluindo energia e alimentos aumentou 4,2% no ano.

A meta do próprio Fed para a inflação é de 2% ao ano.

Isenção de responsabilidade: Barani Krishnan não possui posição nas commodities e valores mobiliários sobre as quais escreve.